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“Nasci pra ser Dercy” é estrelado por Grace Gianoukas, vencedora dos prêmios APCA e SHELL (2024) de melhor atriz e I Love PRIO (2024), de melhor performance Foto: Heloísa Bortz |
Em cartaz por apenas três apresentações no Rio, Nasci pra ser Dercy celebra a trajetória da artista que revolucionou a comédia brasileira
No ar na novela Eta Mundo Melhor! como Jocasta, no divertido núcleo do sítio de Quinzinho (Ary Fontoura) e Cunegundes (Elisabeth Savalla), Grace Gianoukas abre o ano voltando ao palco do Teatro Rival Petrobras com o premiado monólogo Nasci pra ser Dercy, escrito e dirigido por Kiko Rieser.
Desde a estreia, em 2023, o espetáculo – visto por mais de 40 mil pessoas – é enorme sucesso de crítica e público por onde passa e aterrissa no icônico Rival, para três únicas apresentações. Espaço de resistência cultural, onde Dercy se apresentou várias vezes e onde consolidou sua reputação como uma das maiores comediantes do Brasil, o Rival foi seu segundo lar.
O espetáculo, produzido pela Ventilador de Talentos, rendeu à Grace Gianoukas os prêmios SHELL e APCA de melhor atriz (2024) e I Love PRIO do Humor, de melhor performance. Já o diretor Kiko Rieser conquistou o Prêmio Bibi Ferreira (2023), na categoria Melhor Dramaturgia Original. O espetáculo ainda foi indicado aos prêmios CENIM (Melhor Monólogo) e Miguel Arcanjo (Melhor Direção, Peça e Atriz).
Grace conta que, quando nasceu, o Brasil já gargalhava com Dercy Gonçalves e que, na medida que ia crescendo, passou a conhecer melhor seu trabalho no cinema, na TV, em suas participações memoráveis nos programas de auditório.
“No final dos anos 80, a partir de uma sugestão da atriz Christiane Tricerri, fui convidada pelo Jornal da Tarde para, ao lado de outras atrizes comediantes, assistir ao show de Dercy no teatro e conversarmos com ela no final. Foi ótimo! Ela nos tratou com muito carinho e disse uma coisa que eu nunca mais esqueci: ‘Evitem ficar tirando a roupa em qualquer trabalho. Enquanto vocês são jovens, muitas vezes a nudez é só exploração da imagem feminina, é só chamariz, não tem nada de arte. Deixem pra ficar nuas quando tiverem a minha idade. Uma velha nua é uma transgressão, traz questionamento, e isso é arte’, lembra Grace. “Convivi com várias mulheres de sua geração e sei dos horrores de moralismo, machismo e opressão social que elas passaram, e por isso admiro Dercy profundamente, pela força, inteligência, empreendedorismo e extraordinário talento como atriz, autora e produtora”, conclui.
Com o convite de Kiko Rieser para atuar em Nasci pra ser Dercy, Grace teve a oportunidade de pesquisar e conhecer melhor Dolores Gonçalves Costa, que, assim como ela, nasceu numa cidade do interior, onde muitas vezes se sentia extremamente deslocada e incompreendida. “No entanto, ao contrário de mim, que sempre tive o apoio da minha família, ela teve que enfrentar o mundo sozinha, sem nenhuma orientação, amparada apenas pela força de sua alma em expansão. Essa alma, guiada pelo seu desejo de liberdade e conhecimento, ela batizou como Dercy Gonçalves, uma grande guerreira que transformou sua dor em alegria para o povo brasileiro.”
Já o autor e diretor Kiko Rieser conta que, quando criança, queria que Dercy fosse sua avó. Quem não gostou disso foi sua avó Daisy, que “ficou ofendidíssima, como se eu quisesse substitui-la”. “Na minha cabeça a coisa era simples: tendo apenas uma avó, havia ainda um outro posto vago, que poderia ser ocupado por aquela velhinha que me encantava com sua autenticidade e seu despudor em soltar verdades e palavrões conforme lhe vinham à cabeça. Acho que nunca havia visto até então, como tampouco vi depois, uma pessoa tão autêntica quanto Dercy Gonçalves”, relata Kiko, que é parte da última geração que Dercy atravessou e influenciou em sua vida intensa e prolífica. “É claro que descobrir uma senhora emplumada no alto de seus 90 anos mandando ‘tomar no cu’ quem lhe desse na telha e se dirigindo ao presidente da República com um ‘ô, cara’ tinha um sabor especial de transgressão. O estigma da ‘velha louca que fala palavrão’ me fascinou.”
Mais tarde descobriu como essa definição era redutora, e até mesmo falsa, “porque de louca Dercy não tinha nada. Pelo contrário, tinha consciência e método de sobra.” E foi só depois de assumir o palco como ofício, que Kiko compreendeu a verdadeira dimensão de Dercy Gonçalves: uma mulher que revolucionou a cena brasileira e abriu caminhos para a autonomia feminina. “É surpreendente que, 17 anos após sua morte, ela ainda não tinha sido homenageada no palco que tanto amou. Nasci pra ser Dercy é mais do que uma homenagem: é um resgate histórico e um gesto de gratidão a quem pavimentou o caminho para que hoje sejamos quem somos. Obrigado, Dercy!”, finaliza o autor.
Dercy Gonçalves (23/06/1907 – 18/07/2008) faleceu aos 101 anos, sem nunca ter sido homenageada nos palcos brasileiros – até agora. A peça Nasci pra ser Dercy celebra, pela primeira vez no teatro, a trajetória de uma das artistas mais singulares do Brasil. Unindo o carisma popular de Dercy a uma pesquisa profunda, o espetáculo destaca sua importância para o teatro nacional e para a liberdade feminina.
Dercy foi uma mulher de contrastes: desbocada em cena, mas recatada na vida pessoal – chegou a se casar e enviuvar ainda virgem. Contestadora da censura durante a ditadura militar, recusava-se a levantar bandeiras políticas, defendendo apenas a liberdade plena e o respeito à diversidade.
Consagrada como vedete do Teatro de Revista, sua maior contribuição veio ao reinventar a comédia popular, rompendo padrões e inaugurando uma linguagem cênica autenticamente brasileira. Embora amplamente reconhecida, Dercy ainda é pouco compreendida. Como define o autor Kiko Rieser, “foi chamada de louca, puta, santa, ícone – mas era, acima de tudo, uma mulher grandiosa, inclassificável e única.”
Após estas apresentações no Rio, Grace segue para seu estado natal, Rio Grande do Sul, para duas sessões de Dercy no festival Porto Verão Alegre, em 24 e 25 de janeiro. E volta ao estado fluminense, em 28 de fevereiro e 1º de março, no Teatro Municipal Átila Costa, em São Pedro da Aldeia.
Sinopse
A peça começa com uma atriz, Vera, entrando no estúdio para fazer teste para o papel de Dercy Gonçalves em um filme. Conforme vai dando suas falas, ela se revolta contra o roteiro, cheio de estereótipos. Sua mãe era grande fã de Dercy e por isso Vera cresceu conhecendo e sendo influenciada pelo exemplo dessa artista icônica. Ela então, transformando-se em Dercy, começa a mostrar quem realmente foi essa mulher à frente de seu tempo.
SERVIÇO
Nasci pra ser Dercy
Local: Teatro Rival Petrobras
Endereço: Rua Álvaro Alvim, 33 - Cinelândia, Rio de Janeiro
Data: 16, 17 e 18/jan
Horário: Sexta e sábado às 19h30; domingo, às 17h
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos
Capacidade: 350 lugares
Ingressos: entre R$ 50,00 e R$ 120,00
Atendimento/bilheteria: No dia do espetáculo, 2h antes do início da sessão
Agendamento para grupos (com preços especiais): www.ventiladordetalentos.com.
Pela internet: https://bileto.sympla.com.br/
FICHA TÉCNICA
Texto e direção: Kiko Rieser
Atriz: Grace Gianoukas
Voz off: Miguel Falabella
Diretor de Produção: Paulo Marcel
Técnico de luz: Jânio Silva/Hugo Peake
Técnico de som: Éder Sousa/Brenda Umbelino
Contra regra/camarim: Venício Alvarenga/Silvia Lopes
Cenário e figurino: Kleber Montanheiro
Desenho de luz: Aline Santini
Trilha sonora original e arranjos: Mau Machado
Canção-tema “Só sei ser Dercy”: Danilo Dunas e Pedro Buarque
Visagismo: Eliseu Cabral
Assistência de direção: André Kirmayr
Preparação corporal: Bruna Longo
Preparação vocal: André Checchia
Assistência de figurino: Marcos Valadão
Cenotécnica: Evas Carreteiro
Design gráfico: Pierre da Rosa
Assessoria de imprensa: Biba Fonseca e Alisson Schafascheck
Mídias sociais: Pierre da Rosa
Fotos: Heloísa Bortz (estúdio) Priscila Prade (cenas/palco)
Realização e Produção Nacional: Ventilador de Talentos
Produção associada: Rieser Produções

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